sábado, 14 de março de 2009

Meu Perfil

Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice;
mas, se o meu amor-próprio não deixar que eu o perceba,
contentar-me-ei de ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louca.

Assim, pergunto se se deve estimar o que magoa, ou antes o que ensina e instrui,
censurando a vida e os costumes humanos, sem pessoalmente ferir ninguém.
Para dizer a verdade, não nasci nem do Caos, nem do Orco, nem de Saturno.
É Plutão, deus das riquezas, o meu pai. Plutão, que, no presente como no passado,
a um simples gesto, cria, destrói, governa todas as coisas sagradas e profanas.
Sou filha do prazer e o amor livre presidiu ao meu nascimento;

Se, além disso, fazeis questão de saber ainda qual a minha pátria
ficai sabendo que não nasci nem na ilha Natante de Delos, como Apolo;
nem da espuma do agitado Oceano, como Vênus; nem das escuras cavernas.
Nasci nas ilhas Fortunadas, onde a natureza não tem necessidade alguma da arte.
Não se sabe, ali, o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças;

Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto,
como quase todos os homens:
mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe.
Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados,
estendo o meu domínio sobre todas as coisas,
e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império.

Já conheceis, portanto, o meu nascimento, a minha educação e a minha corte.
Antes de tudo, dizei-me:
haverá no mundo coisa mais doce e mais preciosa do que a vida?
Que seria esta vida, se é que de vida merece o nome, sem os prazeres da volúpia?

Julgue-me, agora, quem quiser, e confronte o bom serviço que prestei aos homens com a metamorfose dos deuses.
Concedo, de bom agrado, que a verdade seja odiada por todos
e muito mais pelos monarcas.Mas, é justamente essa razão
o que mais honra os meus loucos.

Elogio a Loucura-Erasmo de Rotterdam

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