sábado, 16 de junho de 2012

O que se deve mostrar e ver, o que não de deve mostrar e ver

Tema de grande atualidade, numa altura em que tudo é espetáculo!


Mas parece-me muito fácil discernir o que deve ser visto do que não deve ser visto, sem atentar contra a moral.
Devem ou não mostrarem-se imagens do horror do holocausto, dos campos de concentração nazis e soviéticos?
Devem ou não mostrarem-se as imagens de Hiroshima e Nagasaqui?
Devem ou não mostrarem-se imagens do 11 de Setembro ou da invasão do Afeganistão e do Iraque?

Podem dizer-me que esses são acontecimentos de dimensão coletiva, mas por vezes há acontecimentos individuais que, infelizmente, se tornam acontecimentos simbólicos, de repercussão colectiva, mais ainda, universal.
A defesa dos mais elementares direitos humanos (o direito à vida, em primeiro lugar, o direito ao amor, o direito à escolha de uma religião ou de um parceiro) deverá estar à frente de tudo.
Aqui, nos EUA, no Afeganistão ou no Sudão.
Uma outra coisa muito diferente é especular com os sentimentos mais fáceis e primários do público, dando-lhe, em doses maciças, o que ele quer ver sobre a pequena história.

Por muito que custe dizer isto, sobretudo aos pais da menina desaparecida, o caso de Madeleine é o da pequena história quotidiana, o caso da jovem Dua Khalil Aswad morta por apedrejamento em 2007 diz respeito à grande História.
O raptor de Madeleine pertence a um grupo humano patológico que sempre irá existir, por muito que nos custe aceitar esta certeza; os que mataram em alcateia de duas mil mãos a projetarem a morte com pedras e blocos de cimento têm de ser eliminados da face da Terra. Rapidamente.
Os primeiros pertencem ao domínio da psicologia e da anormalidade, os segundos pertencem aos domínios da sociologia, da política, da religião.
Uns isolam-se, outros anulam-se.
Uns são casos de polícia, outros são casos de Estados, ou de Humanidade.

Reconheço que é tudo muito difícil, mas com um pouco de lucidez vamos tentar discernir e ver o que se deve ver para educação de todos, e o que se deverá evitar ver, para equilíbrio da vida de todos.

Quanto ao que se deve ou não fazer, para que servem petições e posts em blogues, eis o que a notícia do Publico conforma: “O Governo regional do Curdistão emitiu a 1 de Maio, poucos dias após uma manifestação de mulheres curdas na cidade de Erbil, um comunicado em que condena o assassinato de Dua Khalil Aswad. O comunicado sublinha que a lei iraquiana pune os chamados "crimes de honra" e que vários homens estão a aguardar julgamento por casos semelhantes. Pede ainda que o sistema judicial iraquiano puna os responsáveis pelo assassinato. As autoridades dizem que foram presas duas pessoas por causa do apedrejamento, mas que outras quatro fugiram. A divulgação dos vídeos na Internet suscitou também reacções por parte da imprensa internacional e de vários grupos de defesa dos direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional.”

Como se vê, a reação regional, nacional e internacional dá os seus frutos. É preciso um protesto cada vez maior. Fazer ouvir o nosso protesto com cada vez mais força. Mais alto. Mais longe.
hoje andei à procura do vídeo da morte dela, na net. nunca tinha procurado uma coisa assim. nunca procurei os vídeos das execuções da al qaeda. não procurei o vídeo da morte de saddam -- embora o tenha visto, na tv. nunca tive sequer a ideia de fazer isso, de procurar um vídeo assim.


não o encontrei. na verdade, não sei se queria mesmo encontrá-lo. das duas ou três vezes que abri um site e fiz download do vídeo que dizia 'death by stoning of 17 year old iraqi girl' ou 'horrifying video' ou 'dua khalil aswad death' fi-lo com pavor. o pavor de quem não sabe se vai aguentar ver e o pavor, muito mais pavor, de quem receia aguentar bem de mais.

de todas as vezes, o vídeo não estava lá. foi retirado. foi retirado do you tube e de mais uma série de sítios. vai voltar sempre, claro. é uma espécie particular de snuff movie. há quem aprecie snuff movies. mas esse não é o ponto. o ponto era o porquê da minha busca.

podia dizer que tinha de ver para acreditar que uma criança de 17 anos pode ser lapidada hoje, no século XXI mas eu acredito. já sabia que estas coisas acontecem. com pedras, com gasolina, com o que vier à mão, e pela mão daqueles em quem estas jovens e mulheres mais confiam: os irmãos, os pais, os tios.
Quando vi na tv aquelas imagens rápidas, indistintas, dos filmes de telemóvel, esses filmes instantâneos de todas as atrocidades que agora se servem fresquinhos na net, quis vê-la. ela não se via, ali, e eu quis vê-la. quis dar um rosto e uma dor a este nome, dua khalil aswad. quis gravá-la na minha memória, a jovem curda de nome arrevezado. reconhecê-la como quem reconhece um corpo na morgue -- porque tem de ser, porque é, de algum modo, uma forma de respeito.

quis estar ali, uns segundos, um minuto, até aguentar. como testemunha. como irmã.
quis chorar por ela, quis ter raiva por ela, quis odiar por ela.

FONTE :(Relato de Ana Paula, do Blogue “Música do Acaso”, sobre o caso de Dua Khalil Aswad, a jovem de 17 anos, assassinada à pedrada no Norte do Iraque, para desagravo da honra dos familiares,deixou aqui um comentário que rezava assim: “Em casos destes, tão graves, geralmente acho todas as palavras vãs. No entanto, em memória desta jovem que desaparece do mundo de modo tão absolutamente indigno, vale dizer)

Lembrando também da morte de Aisha Ibrahim Duhulow, 13 anos de idade.

Jornalistas somalianos haviam noticiado que Duhulow tinha 23 anos de idade, julgando pela sua aparência física. A verdadeira idade dela só veio à tona quando seu pai disse se tratar de uma criança. Duhulow lutou contra quem a detinha, e foi levada à força para dentro do estádio.

A Anistia Internacional disse que foi informada por várias testemunhas que, em dado momento durante o apedrejamento, enfermeiras receberam instruções para verificar se Aisha Ibrahim Duhulow ainda estava viva.
Ao constatarem que sim, a menina foi recolocada em um buraco no chão onde tinha sido coberta de pedras, para que o apedrejamento continuasse até sua morte. Segundo a Anistia, nenhum dos homens que estupraram a menina foi preso.
A Anistia Internacional vem realizando uma campanha para pôr fim à prática de punição por apedrejamento.






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