domingo, 28 de fevereiro de 2010

Apenas Sobre um Corpo



"Para uma mulher, o desejo não sofreria a cisão: é um mesmo homem que ela ama e deseja. Esse amálgama com o amor é que dá ao desejo feminino seu caráter inefável e nebuloso,não compreendido pelos homens!"

"Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor ( ... ) Freud esclarece sobre a cisão do desejo masculino, constituída em duas correntes: uma terna e outra erótica. Esta dificuldade é típica da vida amorosa dos homens, impossibilitando-os a amar e desejar a mesma mulher: a mulher amada não pode ser desejada sexualmente e a mulher desejada não pode ser amada."

"O Outro lado da historia:A Mulher que Não se deve ser!"


O modelo ideal de mulher que “deve” ser submissa, frágil, obediente (sobretudo ao homem —
pai, marido, irmão mais velho). É a “mocinha” das histórias, a Cinderela, a Branca de
Neve, enfrentando com sua fragilidade, mas persistência, as maldades de suas
oponentes: bruxa, madrasta (nas histórias infantis, quase sinônimo de bruxa) etc.
Constrói-se o perfil, segundo o modelo da Modernidade, de que as mulheres
devem ter um comportamento a partir do perfil da beleza singela — leia-se branca,
nesses contos populares —, doce, suave, frágil, submissa. É este perfil que será
premiado, evidentemente, seu prêmio é o casamento com um príncipe da mesma estirpe
social, também com um determinado tipo de beleza — também branco —, forte, audaz,
invencível. Antagonizando com este perfil, subjaz ali a apresentação da mulher que não se deve ser: autônoma, forte, decidida.
Esta outra mulher,
como Eva no paraíso, ao tomar uma atitude contrária ao que se espera dela, torna-se um pária na sociedade, EXPULSA DO PARAÍSO, levando com ela os que a seguiram. Opondo-se aos modelos, elas são descritas como feias, cruéis, e sempre têm seu intento perdido.
Não alcançam o status que buscam, perdem o que possuem, são afastadas do convívio
dos outros.
Em geral, a protagonista atravessa os obstáculos para, no final, usufruir do
“felizes para sempre”. A outra mulher da história, antagonista da mocinha, é também
responsável por criar as situações que se constituem obstáculos para, de alguma
maneira, serem vencidos pela mulher “boa”, ratificando a postura construída dentro de
um modelo cristão de que se deve enfrentar muitas coisas ruins, sofrimentos, para se
alcançar a glória. Há, portanto, um modelo para ser seguido (o da mocinha premiada) e
um modelo para não ser seguido (o da mulher má).
Os modelos colocados a partir dessas personagens definem o que
a mulher, nesta sociedade, pode e não pode ser. E a análise de tais modelos permitemme
afirmar que a sociedade ocidental ainda é fortemente marcada pelo sexismo, uma
vez que o perfil premiado é o de uma mulher que não decide e, quando decide, sua força
aparece sempre à sombra. Entendo-a como uma protagonista que não protagoniza.
Minha hipótese é de que o perfil dessa mulher que se opõe àquela que tem
sucesso no final da história representa a mulher que não se deve ser, uma vez que
conseguir realizar seus desejos é um objetivo comum a todas as pessoas.
Comparando o perfil, confirmo a hipótese de que a
mulher dócil, submissa e frágil, com sua premiação, define, no imaginário popular, uma mulher que se deve ser. Afinal, quem não deseja a recompensa? Quem não deseja
conseguir seus objetivos, ser amada, desejada, querida, ter a atenção das outras pessoas?
... a discrepância, a tensão, e o constante deslize entre, de um lado, a Mulher como
representação, como o objeto e a própria condição da representação e, de outro
lado, as mulheres como seres históricos, sujeitos de “relações reais”, são
motivadas e sustentadas por uma contradição em nossa cultura, uma contradição
irreconciliável: as mulheres se situam tanto dentro e fora da representação.
(LAURETIS, 1994, p. 217-218)

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