terça-feira, 18 de agosto de 2009

A verdade que as mulheres contam - lindo e verdadeiro!

A história da humanidade está recheada de violência e injustiças contra o chamado segundo sexo. Violência essa acentuada pelo cristianismo e pelas religiões monoteístas em geral. Se pensarmos nos arquétipos femininos representados pelas deusas gregas, romanas, indianas, indígenas e africanas, vemos que os povos politeístas respeitavam e respeitam bem mais a mulher do que aqueles que adotam um deus único.Enquanto deus mexeu os pauzinhos em 7 dias para criar o mundo, o caos, o homem e essa bagunça toda que se vê por aí, a energia yin constitui, no politeísmo, a base da concepção da própria humanidade. Assim, o feminino está presente na "mãe Terra" xamânica; na loba que amamentou Rômulo e Remo, fundadores de Roma; e na Titã Gaia, mãe de Zeus, o correspondente grego do Todo-poderoso cristão.E no catolicismo, o que temos? A condenação de Eva como responsável pelo pecado original. Eva é o bode expiatório de todos os males da humanidade até os dias de hoje. A criação de Eva, aliás, surgiu como forma de execrar outra figura feminina: Lilith.Há várias versões sobre o mito de Lilith. A grosso modo, ela sim era a primeira mulher e foi criada para aturar o sacripanta do Adão, devendo satisfazer suas vontades. Mas Lilith se rebelou. Era quase uma executiva dos nossos dias, cheia de idéias na cabeça, liberdade nos pés, muito bonita, sexy e dominadora. Ela jamais ficaria em casa, cuidando de pirralhos melequentos e cheia de bobes nos cabelos, esperando o pulha do marido voltar às 5h da manhã, com bafo de pinga e marca de batom no cangote, sem dizer onde esteve. Aliás, dizendo ou não onde esteve, ela não esperaria por ele porque tinha mais o que fazer. E se o encontrasse no meio do caminho, era capaz de devorá-lo, literalmente.Grande garota! Mas perigosa demais para a segurança e auto-afirmação masculina. Por isso, foi preciso que a igreja católica a tirasse de cena, vinculando-a à bruxaria e a Satanás. Sai Lilith e entra a passível, submissa e tolinha Eva.
O mito das Amazonas também se fundamenta no arquétipo da mulher auto-suficiente. Adaptado em várias regiões do planeta, aqui no Brasil foram levadas tão a sério pelos portugueses do século XVI que chegaram a dar o nome ao maior rio do mundo.Os colonizadores realmente temiam o ataque das filhas de Marte. Mulheres fortes, agressivas, bélicas, elas punham todo mundo para correr. Caçavam, pescavam, construíam casas, canoas e, segundo a lenda, quando tinham vontade de "dar uns pegas", invadiam uma aldeia vizinha para copular com os prisioneiros. Depois, claro, deixavam o que sobrou do sujeito para trás ou o matavam. Se dessa excursão sexual nascesse um menino, o coitado era afogado tão logo fosse identificado seu "pingolim".
Mas eis que chega a inquisição e transforma todas as mulheres independentes em bruxas ou prostitutas ― o que dava no mesmo, até então.
Havia ainda aquelas que eram obrigadas a esperar a volta de um marido explorador que talvez nem estivesse mais vivo. Às vezes a espera superava décadas. Se a mulher se casasse novamente, poderia ser acusada pela inquisição de bigamia. Se "pulasse a cerca" com um vizinho, era acusada de adultério. A sodomia, por sua vez, era considerada um delito menor. Menor até que o homossexualismo masculino, já que os homens do Santo Ofício não podiam conceber a idéia do "ajuntamento carnal" sem que houvesse penetração.A função das mulheres brancas que vinham de Portugal era uma só: parir. E parir um varão, isto é, dar filhos homens a seus maridos. Essas mulheres estavam acostumadas a um mínimo de conforto na metrópole. Ao chegar aqui, encontraram o próprio inferno: calor, bichos, falta de tudo o que se possa imaginar e, sobretudo, de quem as entendesse. Elas eram escolhidas pelos homens, muitos deles degredados, e ainda tinham que providenciar o dote, uma espécie de recompensa para o sujeito que aceitasse "desencalhá-la". No fim das contas, a mulher branca valia menos do que uma vaca e a situação das chamadas "negras" (índias) e as "negras de Guiné" (negras africanas) não era diferente. Estupros e abusos eram mais comuns do que se pensa; as mulheres do século XVI não eram donas sequer do próprio corpo.
Depois de tudo isso, é compreensível que as mulheres tenham queimado sutiãs, usado mini-saia e depois a tenham trocado pelo par de calças jeans. O problema foi quando resolveram trocar as calças jeans pelas de linho, acrescentando um terninho, uma gravata e uma pasta debaixo do braço. Problema porque em vez de assumirem sua independência, mantendo a essência feminina, começaram a competir com os homens e a imitá-los. A competição poderia ao menos ser mais justa, caso as regras desse jogo não tivessem sido criadas, exclusivamente, por eles.São poucas as mulheres que ocupam lugares de destaque dentro de empresas e em cargos políticos, hoje. E são ainda mais escassas aquelas que conseguem fazer isso sem precisar vestir a fantasia de "mulher macho", para serem levadas a sério tanto por homens quanto por elas mesmas.
É impressionante como nos deixamos aprisionar pelos estereótipos propagados na sociedade e na mídia: novelas em que as personagens femininas são histéricas; revistas que ensinam 53 idéias para agradar o homem na cama, na mesa e no banho, ou 82 formas de ficar linda de morrer para o namorado; as "músicas" de axé, funk, pagode etc. que tratam as mulheres como "cachorras"... Enfim, é um bombardeio de informações que aproveita a reação feminina ao machismo histórico e a joga do lado oposto: o da MASCULINIZAÇÃO.

Uma bobagem só. Somos independentes, não auto-suficientes,
assim como os homens.
Sempre vamos precisar deles como eles de nós.
Ao longo da história, nos obrigamos a ser aquilo que os homens queriam que fôssemos:
bruxas, putas, mães, escravas, empregadas, damas, modelos etc., tolerando os defeitos masculinos com a intenção de receber amor em troca. Está mais que na hora de eles quererem o melhor que temos para oferecer: companheirismo e cumplicidade.Os homem vivem dizendo não entender o que as mulheres querem. Ora, queremos o de sempre: ser amadas. Sempre soubemos das mentiras que os homens contam, mas queremos tanto acreditar nelas que fingimos não ouvi-las. Do mesmo modo que os homens fingem não ouvir as verdades que as mulheres contam.

Texto maravilhoso de Pilar FazitoBelo Horizonte, 17/3/2008

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