segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Acordar


E no meio de tudo a gare,

que nunca dorme.

Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar.

Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.

À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se

Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma.

E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobre tudo cai.

A espiritualidade feita com a nossa própria carne.

Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha.

Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom.

São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,são os sentimentos que eu quero,são os sentimentos que eu mereço.

Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes.

Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste.

Entre o ruído da multidão em vivas...


O arcanjo isolado, escultura numa catedral.

Tudo isto tende para o mesmo centro.

Busca encontrar-se e fundir-se

Na minha alma, que anseia pelo novo, pelo inesperado.
O que a maré deste novo dia me trará?


Eu adoro todas as coisas

E o meu coração é um albergue aberto dia e noite.
Não tenho medo da vida e não tenho medo de viver.
Aliás, tenho pela vida um interesse ávido!
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.

Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo.

Aos homens e às pedras.


Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim própria

E a minha ambição era trazer o universo ao colo

Como uma criança a quem a ama beija.

Eu amo todas as coisas.

Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo

Do que as que vi ou verei.

Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.


A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.

Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios. E rosas também. Dá-me rosas, rosas.

E lírios também.

Crisântemos, dálias, Violetas, e os girassóis

Acima de todas as flores... Deita-me as mancheiras.
Dá-me todas as cores, que eu desejo, que eu anseio agora.

Deita-me as mancheiras.
Por cima da alma.

Na sombra dos parques.

a própria sombra dos parques

Entrando-me na alma,


Chego às janelas

Dos palácios arruinados

E cismo de dentro para fora

Para me consolar do presente.

Dá-me rosas, rosas, E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,

Eu nunca acharei que a vida é bastante.


Faltar-me-á sempre qualquer coisa,

Sobrar-me-á sempre de que desejar,

Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,

E muito embora o que eu te peça

Te pareça que não quer dizer nada


É atrás disso tudo que vou

Com o peito aberto.

Isto é o que me espera,

ancioso por encontrar-me

depois deste despertar!
Vou colocar a criança que em mim mora em movimento,
vou embala-la e solta-la pelo mundo
soltá-la como um balão ao vento!
Acordei, estou viva!
Ela precisa caminhar, sentir, viver, merecer.
Está pronta, está preparada, já sabe caminhar sozinha!

(Álvaro de Campos com adaptação de Lora)


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